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Trabalho voluntário melhora saúde mental e traz mais qualidade de vida

O profissional de hotelaria Felipe Arruga ainda era criança quando teve o primeiro contato com o voluntariado. Seus pais costumavam levar a família a visitas em asilos e orfanatos em datas específicas, como Natal e Páscoa, para que criassem desde cedo a consciência de que precisavam ajudar o próximo. Os anos se passaram, mas Arruga manteve na cabeça o que aprendeu com os pais e sempre esteve envolvido em algum tipo de projeto. Atualmente, aos 44 anos, faz parte do grupo Fogão na Rua, que distribui refeições, cobertores e itens de higiene para moradores de rua no centro de São Paulo. A cada novo encontro, o bem-estar pessoal cresce dentro dele. "Pode parecer clichê, mas gratidão é o sentimento que define. Por poder fazer algo e por saber o impacto que isso tem na vida das pessoas. Ver a alegria nos olhos de quem está recebendo essas doações dá uma satisfação muito grande. O voluntariado faz um bem enorme", diz.

A sensação é real e, muitas vezes, impacta diretamente na saúde mental do voluntário. "O voluntariado contribui não só para o acréscimo de bem-estar, como também a diminuição de sintomas depressivos e melhora da qualidade de vida. Alguns estudos destacam, inclusive, o trabalho voluntário como estratégia de promoção de saúde, principalmente para a população idosa", explica a psicóloga Flávia Marucci-Dalpicolo, professora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP/USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) e diretora do Serviço de Psicologia Hospitalar do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

O voluntariado ainda proporciona melhoria significativa da visão de si mesmo (por estar vinculado a uma causa com valor pessoal e social), reconhecimento social (como uma pessoa altruísta e com disponibilidade para ajudar), satisfação em perceber que pode mudar algo na vida de alguém e na sociedade e sentimento de pertencer a um determinado grupo. "Estes sentimentos favorecem uma sensação de prazer, de satisfação, de gratificação. Pesquisas mostram que essas experiências têm um efeito muito benéfico não só nos aspectos psicológicos e de autoestima, como também apontam para diminuição de sintomas de doenças crônicas e melhoria no quadro geral de saúde mental", diz a psicóloga Maria da Conceição Uvaldo, do Laboratório de Estudos sobre o Trabalho e Orientação Profissional do Instituto de Psicologia da USP.

 

Quando você ajuda, também se ajuda

"Há dois anos atuando como voluntário no ADUS, instituto que promove a integração de refugiados na sociedade brasileira, Eduardo Medeiros do Paço, 32, encontrou ali um dos principais propósitos de sua vida. "Atendo as demandas jurídicas dos refugiados. São dúvidas de documentação, visto e passaporte, principalmente. Porém, chegam casos de dúvidas para abrir um negócio ou como investir no Brasil e também oferecemos esse suporte. Não fazemos ações ou processos, mas estamos sempre ali para tirar dúvidas, orientar e escutar".

O contato com pessoas tão diferentes deu a Paço a confiança que lhe faltava. "Sempre gostei de ter contato com pessoas de outras nacionalidades e, por ser advogado e jornalista, pensei que trabalhar com refugiados seria uma oportunidade interessante para ouvir estórias, ajudar pessoas e entender melhor o mundo. Sempre me perguntam se acho que faço a diferença na vida de alguém, porém, o que as pessoas me contam de guerras, ditaduras e vivências que tiveram é o que faz diferença na minha vida".

Hoje diretora do Ipesa (Instituto de Projetos e Pesquisa Socioambientais), a geógrafa Paola Samora, 41, começou como voluntária no projeto, ainda em 2005. A ideia de transformar espaços ociosos das escolas em laboratório de práticas educativas ambientais, como criação de hortas, composteiras, sistemas de irrigação e implantação de separação seletiva dos materiais, foi o que chamou a atenção para que entrasse de cabeça. "Me faz bem o trabalho voluntário que exerço, por ser algo em que acredito, principalmente, quando olho os resultados dos projetos que ajudo a viabilizar e que trazem melhorias para as pessoas e o ambiente em que vivemos. Me sinto realizada e feliz. Vejo que exerço a minha cidadania e, ao mesmo tempo, me dedico a um trabalho de que gosto"

Uma das premissas do voluntariado é mesmo fazer o que gosta e defender causas que acredita. Para Marcelo Nonohay, diretor da MGN Consultoria, empresa especializada em gestão de projetos para transformação social, este é o primeiro passo para quem deseja começar. "Quando você ajuda, também se ajuda. O voluntariado dá um propósito à vida das pessoas e, muitas vezes, vem acompanhado da sensação de satisfação e felicidade".

Sensibilidade à vulnerabilidade aumentou com pandemia Segundo a pesquisa World Giving Index 2021, da Charities Aid Foundation, o Brasil subiu 14 posições no Ranking Global de Solidariedade e ocupa agora a 54ª colocação em uma lista de 114 nações. Este é nosso melhor desempenho até aqui e se iguala aos números de 2016, quando a população brasileira se mobilizou de forma inédita para ajudar familiares de vítimas do rompimento da barragem de Mariana (Mg).

O estudo aponta que 15% dos brasileiros atuaram de forma voluntária no último ano e 63% ajudaram uma pessoa desconhecida. "No Brasil, ainda existe uma percepção de que trabalho voluntário é 'trabalhar de graça'. Sobram justificativas de falta de tempo e de não saber acessar as Organizações Sociais. Espera-se muito do Estado para resolver todos os problemas sociais e ambientais. Temos de vencer essas barreiras para manter o mesmo nível de solidariedade visto durante a pandemia", diz Nonohay.

Para Marucci-Dalpicolo, o último ano fez com que as pessoas entrassem em contato com suas próprias vulnerabilidades e isso as tornou mais sensíveis às vulnerabilidades dos outros. "Diante de uma situação de tamanha incontrolabilidade, na qual não temos condições de individualmente evitar ou impedir o avanço da pandemia e os efeitos dela no mundo, nos voltamos para aquilo que está ao nosso alcance, de forma a tentar amenizar o impacto, colaborando da forma que podemos para tentar melhorar o mundo em que vivemos".

Segundo ela, diante de tantas histórias de perdas, lutos e prejuízos, incluindo financeiros, o trabalho voluntário pode ser uma estratégia de enfrentamento bastante funcional, para reavaliar a condição de estresse compartilhada e exercer ativamente algum controle, fazer diferença dentro do que está ao alcance.

 

Quero começar, e agora? 

Abraçar uma causa só faz sentido se você for motivado por ela. Segundo Uvaldo, quem quer começar no voluntariado precisa, necessariamente, buscar algo que sinta que possa colaborar. "Se não tenho afinidade com cachorros, não faz sentido participar de uma ONG (Organização Não Governamental) que cuide desses animais, por mais que, intelectualmente, seja muito relevante. É relevante, mas não me impacta afetivamente".

De acordo com a psicóloga, sempre é importante entender que tipo de atividade voluntária se gostaria de atuar, "até porque temos tantas possibilidades de problemas que a minha ajuda pode ser importante e me dar a sensação de estar ajudando, de fazer diferença e ter a sensação de bem-estar que a percepção de se sentir uma boa pessoa e de reconhecimento podem propiciar".

Outro ponto importante, ainda segundo ela, é respeitar as disponibilidades de tempo, emocional e interesse. Uma alternativa pode ser escolher uma atividade diferente daquela que você trabalha. "Isso diminui a autocobrança, ou seja, não preciso ser o melhor ou fazer sucesso no desempenho, porque estou aprendendo ou é algo que eu gosto, desvinculando com a atividade profissional e das preocupações e cobranças. O trabalho voluntário pode ajudar a percepção de que a pessoa é capaz de várias coisas diferentes e não exploradas".

Também é importante destacar que você não precisará dispor de, por exemplo, todos os sábados para este trabalho para o resto da vida. Voluntariado não é para ser algo estressante. "Não há nenhum problema de só ser voluntário em uma ação específica ou por um período determinado. Sempre é útil e pode proporcionar bem-estar"

 

 

Fonte: VivaBem

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